SACUDIR A ÁGUA DO CAPOTE
O verão chegou abrasador com temperaturas bruscas que alteraram o corpo e a alma dos poucos que ainda acreditam em milagres. Não me refiro aos milagres que a fé, por vezes, tenta explicar, quando o saber humano não encontra explicações. Refiro-me aos «milagres» económicos e financeiros que nos servem de almofada para as noites mal dormidas, cada vez em maior número. Dizem os graúdos que a culpa é dos outros e que é universal. Mas as desculpas já não «pegam» porque cada dia assistimos a mais e a piores escândalos que têm origem no poder político e nas instituições que, desesperadamente, sacodem a água do capote. Fazem lembrar as seguradoras que prometem rapidez, eficácia e simpatia, quando aliciam os clientes, mas que falham quase sempre, quando se lhes bate à porta, para reclamar direitos. Os exemplos crescem como o desemprego e como a falta de dinheiro que passou a ser o «dono» de tudo e de todos, incluindo as «amplas liberdades» que tentaram justificar a revolução de Abril de 1974. Nessa altura a liberdade era pouca; para muitos, quase nenhuma. Foi com essa promessa que os «capitães de Abril» se «safaram», porque o povo aceitou como boa e universal, essa explicação.
Que temos hoje? A liberdade, por excessiva, transformou-se em libertinagem. Quanto mais libertinos, mentirosos, trafulhas, vigaristas, mais felizes se mostram, mais prepotentes, mais arrogantes. Esta bitola entrou na sociedade portuguesa como medida-padrão. O respeito pelos outros desapareceu do dicionário da cidadania. Enquanto havia falta de liberdade a palavra valia mais do que uma escritura. Podia faltar o pão em casa, mas quem devesse um pão alheio e assumisse um compromisso, um negócio, uma dívida, fosse o que fosse, as pessoas eram escravas desse compromisso. Hoje fazem-se negócios que põem em causa a vida dos contratantes. Está na moda não pagar. Enquanto a obra não está feita, exige-se, barafusta-se, põem-se todos os defeitos. Depois de acabada, fica-se a dever, alegando deficiências, prazos de validade, dificuldades que deveriam ser consideradas antes e não depois.
A justiça anda pelas ruas da amargura. Já nem vale a pena exemplificar com os casos mediáticos da Casa Pia, do Parque Mayer, do Freeport, BPN, da Quimonda. Basta fazer uma ronda pelos tribunais e assistir a sentenças que bradam aos céus. Raramente uma sentença satisfaz a opinião pública que costuma funcionar como vox populi, vox Dei (a voz do povo é a voz de Deus).
Todo este drama em que o país mergulhou teve origem na baixa política. A adesão à União Europeia transformou um país essencialmente agrícola, num povo mendicante e desnorteado.
Escrevo esta crónica durante o último debate sobre o «Estado da Nação». O nosso PM enfatiza e repete que em 2004, o índice de pobreza era superior a 20% e que hoje ronda os 17%. Perante aquilo que se vê, se ouve e se sente, as estatísticas andam de marcha atrás. Após quase uma hora de propaganda a um país irreal ou de «fantasia», não é do Portugal de hoje que o PM pinta com as cores do arco-íris. Quanto melhor tribuno, pior governante.
O Correio da Manhã de 12 do corrente escreve em manchete e demonstra-o nas páginas 4 e 5 que «O Governo compra 922 automóveis. Em plena crise financeira, o Executivo autorizou a renovação da frota do Estado. 608 viaturas novas terão custado 7,7 milhões de euros». Há uma enorme apetência do poder político para dizer uma coisa e fazer outra. Não só do poder político reinante, mas de todos aqueles que governaram em democracia.
É evidente que a política é hoje a mais fascinante actividade ocupacional. Mais de metade da população activa vive hoje da política partidária. Uns eleitos, outros nomeados, outros pela porta do cavalo. As desigualdades, as injustiças distributivas, as arbitrariedades são flagrantes. Lá dizia o autarca da Paio Pires que quem está com o poder come, quem não está nem come nem cheira. Portugal é rápido a comprar o supérfluo, muito lento a economizar para ter aquilo de que precisa. Gosta de fazer figura, ostentar luxo, pagar os mais elevados vencimentos e mordomias, os prémios mais sedutores, recompensar quem ajuda a dar o salto para o pódio. Os gestores bancários e de empresas, com participação estatal, são dos mais bem pagos do planeta. O seleccionador nacional, que nos despromoveu do 3º ao 8º lugar à escala mundial, vai receber 710 mil euros de prémio. Os jogadores que se limitaram a cumprir um dever profissional, foram tratados como deuses olímpicos.
Há cidadãos que gastam vidas inteiras, a produzir ciência, humanismo e progresso. Passam pela vida como seres inexistentes. O país tem «bufos» no futebol, na economia, no crime, na política, na cultura. Em 35 anos de democracia, apenas se idolatraram os heróis mediáticos ou mediatizados. A começar pelos Presidentes da República. O 10 de Junho de cada ano tem sido uma feira de vaidades, com raras excepções. Todos se deram ao cuidado de pagar favores aos seus mandatários, aos seus primos, a serventuários, a motoristas, a padeiras, a assessores, a conselheiros intimistas. Aos filhos do povo, aos emigrantes, a trabalhadores rurais, a artesãos, a engraxadores, a domésticas exploradas, nunca esses conselheiros puseram os olhos em cima, para, também eles, serem medalhados nos palcos da
fama fácil. E, no fim, todos sabem sacudir a água do capote.


